(Português) Pesquisa sobre perfil de pacientes com HIV promove desmistificação do atendimento odontológico

Sorry, this entry is only available in Brazilian Portuguese. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.

A infecção pelo vírus do HIV (vírus da imunodeficiência humana) continua a ser uma das principais problemáticas da saúde internacional. Caracteriza-se, como o nome indica, pela deterioração progressiva do sistema imunológico do seu portador que, quando não tratada, pode acarretar na Síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS), que então possibilita a infecção por doenças oportunistas que não afetariam com tanta facilidade o sistema de uma pessoa saudável.

O Centro de Atendimento a Pacientes Especiais (CAPE) da Faculdade de Odontologia da USP, foi criado há quase trinta anos, em decorrência da epidemia de HIV que se disseminou pelo país e o mundo na década de 80. Naquela época, o vírus e a doença eram muito desconhecidos, principalmente em relação à infectividade. Especificamente na área da saúde, os profissionais que nela atuam se inserem em seu grupo de comportamento de  risco, uma vez que a transmissão ocorre na interação entre fluidos corporais (com acidentes perfurocortantes, pelo sangue, sêmen, dentre alguns outros). Sua criação estava vinculada não apenas a suprir a demanda de atendimento a pacientes HIV positivos que procuravam a instituição, mas também como uma forma de se contribuir com a pesquisa científica em torno dela.

Segundo dados publicados pela UNAIDS Brasil (Joint United Nations Program on HIV/AIDS) – um programa criado pela ONU para auxiliar na epidemia da AIDS – referentes ao ano de 2016: 36,7 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV; houve 1,8 milhão de novas infecções pelo HIV, e 1 milhão de pessoas morreram por causas relacionadas à AIDS, aproximadamente. Já desde o início da epidemia: 76,1 milhões de pessoas foram infectadas pelo HIV e 35 milhões de pessoas morreram por causas relacionadas à AIDS. A forte expansão da doença e a elevada taxa de falecimentos colocaram a população no geral em alerta. Porém, também favoreceu a instauração de certos estereótipos relacionados àqueles que a contraem, e implicando em diversas consequências sociais e políticas.

Em entrevista ao INFOUSP, a Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini, coordenadora do CAPE, destacou um estudo realizado no ano de 2006 pelo centro, em que foi analisado o perfil dos pacientes HIV positivos que procuravam nele tratamento odontológico. O entendimento desse perfil, estendendo-se às manifestações bucais por parte do paciente, sua saúde oral no geral e possíveis doenças sistêmicas auxilia os cirurgiões-dentistas na realização de um atendimento mais direcionado e eficaz, entendendo os contextos que podem (ou não) afetar no manejo odontológico. É uma maneira de familiarizar profissionais que não estão tão cientes das condições gerais de pacientes HIV+; desmistificando o atendimento e aproximando-os.

No último dia 25 de abril, a pós-graduanda Maria Fernanda Bartholo Silva, orientada pela docente, defendeu sua tese de mestrado em torno da realização de um novo estudo análogo ao de 2006, a fim de atualizar informações que poderiam estar ultrapassadas, além de observar mudanças na saúde bucal de pessoas infectadas pelo vírus e o impacto da maior expansão e acesso ao coquetel de remédios. Iniciado em 2017, foram incluídos no estudo 101 pacientes em comparação com 138 do estudo de uma década atrás.

Profa. Dra. Marina Gallottini e a mestranda Maria Fernanda Bartholo

Dentre os resultados e comparações, constatou-se, por exemplo, que hoje em dia os pacientes possuem maior tempo de vida decorrido do diagnóstico, imunidade mais preservada e uma faixa etária mais ampla, o que indica que estão envelhecendo mais e com maior qualidade de vida.

Segundo a pesquisadora, um dos fatores para essas melhorias está relacionada a uma iniciativa promovida pelo Brasil desde 2013 (que sempre foi pioneiro em fornecimento de medicação pelo SUS): determinou-se na época que qualquer pessoa vivendo com HIV deveria iniciar tratamento independente de carga viral ou nível de imunidade. Destaca-se também que, anteriormente, os pacientes possuíam mais doenças oportunistas enquanto hoje predominam lesões relacionadas à idade ou às consequências do tratamento.

Candidíase e pneumonia, mais comuns anteriormente, hoje foram menos observadas, por exemplo. Nesse sentido, a medicação tem papel essencial:reduz a replicação do vírus e com isso, permite a recuperação do sistema imune do paciente. Ao mesmo tempo, há algumas consequências em torno do uso da medicação, como aumento de casos de lipodistrofia (alterações na distribuição de gordura corporal, acumulando mais em algumas áreas, como abdômen, e menos em regiões periféricas do corpo, como perna e braço), ou resistência insulínica, que dificulta a quebra dos açúcares e pode acarretar no desenvolvimento de diabetes, por exemplo.

Ainda em comparação com o trabalho anterior, houve aumento maior de desordem psiquiátrica, muito associadas a uma série de alterações psicológicas envolvendo questões ligadas à vivência social e pessoal como portadores do vírus.

Em outro momento, realizou-se o questionário chamado Ohip 14, avaliando a influência (pela percepção pessoal dos pacientes) da saúde bucal na sua qualidade de vida. Utilizava os últimos seis meses como referência temporal e estendia-se em torno de dores, próteses, mal estar, determinando uma frequência de manutenção de sintomas. Como média dentre os 101 pacientes avaliados, constatou-se uma alteração de nível moderado na qualidade de vida, enquanto um pouco mais da metade deles (55), relatou impacto moderado, negativo ou muito negativo, um número considerável. Mesmo assim, cárie e gengivite tiveram prevalência menor do que na década passada, o que indica que os pacientes estão sendo mais tratados. Dos 101 avaliados, 14 relataram que, quando revelaram seu status como HIV+, o cirurgião-dentista negou atendimento, sendo um número baixo, de acordo com a orientadora, que considera que o preconceito e o medo em atender pessoas HIV positivas em consultório odontológico tem diminuído no meio profissional.

Segundo a pesquisadora, um dos principais focos é a conscientização: “quando os dentistas possuem a oportunidade de conhecer melhor o que o paciente apresenta como manifestação e comorbidade – presença de duas doenças ou mais simultaneamente –  e como isso vai impactar no manejo odontológico, é possível que se sinta mais seguro e disposto a atender e dar atenção maior aos pacientes com HIV”, promovendo um serviço que se demonstra extremamente importante e necessário.

Por Daniel Medina

Skip to content