Da mente do aluno ao bico da impressora nasce uma nova odontologia

O Conto Odontotrônico, de Maria Cristina Pereira Macario Ferreira, aluna da faculdade, descreve as esperanças sobre a utilização da impressão tridimensional na confecção de próteses. Dona Irene, a personagem do conto, no prazo de um cafézinho teria seu novo sorriso entregue. E, para além, uma versão fiel aos nostálgicos dentes perdidos com o passar dos anos. Com um olho na prática e outro no futuro, o CRAI, Centro de Recursos para o Aprendizado e Investigação, disponibiliza para os alunos uma impressora 3D. Ela fica no SDO – Serviço de Documentação Odontológica (biblioteca), onde qualquer um que esteja interessado em aprender sobre o equipamento tem acesso.

Visitamos o Centro, com o intuito de conhecer a máquina, e, além disso, conversar com Robson Brandão, o técnico responsável pela impressora, e com a própria Maria, que por via de seu conto, tentou chamar a atenção dos alunos para o equipamento. Lá conhecemos um pouco sobre as principais produções do aparelho, o qual bem utilizado já deu bons resultados, tanto para nossa faculdade, como para outras unidades da Universidade de São Paulo.

Como Robson nos contou, a instalação da impressora, propriamente dita, só foi possível através de uma parceria entre nós e o PMR, o Departamento de Engenharia Mecatrônica e de Sistemas Mecânicos da Escola Politécnica da USP. Com a ajuda dos “mecatrônicos”, conseguimos um equipamento eficiente por um baixo custo, em 2014, que já passou por melhorias em 2016; e, onde já foram impressos modelos em tamanho real para estudos, tal como uma interface mais didática com o paciente e próteses.

Apesar da aparência rústica de nossa impressora, quando comparada aos equipamentos mais sofisticados que já aparecem em alguns dos consultórios do Brasil, tanto Robson, como Maria falam dela com ternura, dado que representa uma excelente oportunidade para aqueles com curiosidade. Por meio das várias camadas, de precisos 0,4 milímetros, o bico da máquina despeja o polímero que dá forma aos projetos dos estudantes.

Fica a consideração do técnico, todavia, sobre a necessidade de estudar programas de modelamento com afinco para utilizar todo o potencial da impressora. Com o objetivo de quebrar essa barreira dos alunos com a programação, uma iniciativa mais recente é usar exames já feitos em plataformas tridimensionais como base de impressão. Processo já comum em equipamentos mais sofisticados e especializados em odontologia, mas aqui ainda em consideração, não se sabe se por limitações do aparelho, ou por falta de procura por parte dos estudantes, pois os casos de aplicação não faltam.

Logo no primeiro projeto, a impressora foi usada na prototipagem de um grave caso no Hospital Universitário da USP, o HU. O paciente, que tivera a cabeça atravessada por uma bala, depois de passar por uma série de exames, teve seu crânio moldado pelo equipamento, com o propósito de um estudo mais minucioso, antes de qualquer intervenção. Uma pequena amostra do potencial do aparelho.

Hoje, de todo modo, quem usa mais esta máquina são os alunos da pós-graduação. Da confecção de próteses e protótipos até as placas miorrelaxantes usadas no CODD, a gama de possibilidades é imensa. A rapidez e eficiência que Maria descreve em seu conto são fundamentais não só para o conforto do paciente, mas também para a facilidade do serviço do cirurgião-dentistas. Métodos mais simples permitem a realização de mais atendimentos, ao mesmo passo em que consegue-se mais eficiência e personalização deles.

Lidar com o equipamento, é, portanto, uma oportunidade primordial para os alunos da faculdade se encaixarem em um mercado de trabalho que pensa em um panorama de progresso. O CRAI trabalha justamente com o viés de que o cirurgião-dentista hoje deve se integrar com diversas áreas do conhecimento com o objetivo de otimizar o sua forma de atender. O bom uso de meios informacionais, e computacionais é mais uma dessas necessidades.

“Não compramos dentes para compor sua prótese. Mas, sim fabricamos um sorriso que já era seu. É claro que tentamos ser o mais fiel possível, mas, no seu caso, como já havia utilizado prótese por um longo período, fizemos algumas alterações quanto a oclusão.” Como dita o Conto Odontotrônico, novas realidades demandam novos conhecimentos. Fica para os estudantes, então, buscar suprir essa procura.

Por Pedro Teixeira,
pedro.santos.teixeira@usp.br

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