(Português) Entendendo o Brasil e o mundo para assim superar a desigualdade na saúde bucal.

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O Brasil, devido às suas proporções continentais e à distribuição desigual, tanto de capital, como de infraestrutura nos mais diversos aspectos, possui um grave problema de distribuição geográfica de recursos humanos na área odontológica, apesar da grande quantidade de profissionais da área. Com isso em mente, a pós-doutoranda da odontologia social Mariana Gabriel, orientada pela Prof. Dra. Maria Ercília realizou um estudo abrangente dividido em três partes: Primeiro fez-se uma busca a fim de determinar outros países que passavam por problemas parecidos; depois verificou-se o contexto brasileiro através de uma revisão bibliográfica sobre o assunto; e, por último, foram feitas entrevistas com ex-alunos da faculdade que saíram de São Paulo por diversos motivos, com o intuito de entender as motivações que levaram a se mudar.

Ao partir da busca por países com este mesmo desafio, a discente concluiu que se trata de algo comum aos países de grandes dimensões, como Austrália, Canadá, Estados Unidos e África do Sul, por exemplo. Mariana revisou as pesquisas destas nações que abrangessem o assunto, para assim conseguir exemplos, bem como estudar a forma de aplicação dessas iniciativas, além da sua efetividade. Ela explicou, entretanto, que “(…) os dados da odontologia ficaram um pouco frágeis, mas a OMS (Organização Mundial de Saúde) já tinha elaborado um quadro conceitual para outras áreas de profissionais, e a gente o adaptou para a realidade da odontologia.”

Tais fragilidades podem ser explicadas pela grande diferença no oferecimento desse serviço odontológico. “(…) o que acontece na Inglaterra e na Austrália: a pessoa vai a um consultório particular, e se não tiver dinheiro, o governo paga esse cirurgião-dentista privado, assumindo, então, os custos do procedimento realizado. No Brasil é bem diferente disso, nós temos atendimento odontológico hoje nas unidades básicas de saúde.”

Com todo esse trabalho completo, iniciou-se o segundo passo da pesquisa: analisou-se o contexto brasileiro. Além do método anterior, foi possível fazer uma extensa busca de dados secundários, bem como entrevistar egressos de cursos de odontologia, que partiram da cidade de formação, conseguindo um diagnóstico preciso da situação nacional. “Sendo assim, identificamos dois pontos cruciais: a oportunidade de trabalho faz muita diferença para que esses profissionais migrem, assim como a instituição de ensino que cursaram tem um peso muito grande nas escolhas que são feitas.”

Ainda de acordo com a pós-doutoranda “Diferente do que a maioria das pessoas pensam, a estrutura do SUS para se trabalhar é muito boa. Isto posto, aquele mito de que não tem material, cadeira, está sanado, com certeza. Mas, é claro que, em alguns lugares, por conta da gestão, principalmente, existe uma maior deficiência.”

Essa dificuldade do governo chegar a alguns lugares é outro grande entrave no caso brasileiro. A falta de infraestrutura de comunicação e transporte agigantam a já grande distância geográfica, na dimensão do tempo. “(…) recentemente um estudo foi publicado apontando que existem áreas da Amazônia, por exemplo, nas quais são possíveis duas formas de acesso: uma é quando a prefeitura do local leva as pessoas até uma cidade próxima e outro, no momento em que alguns dentistas das cidades próximas ali do estado vão até essas comunidades fazer mutirões, por exemplo.”

Em consequência disso, na terceira fase, foi-se atrás dos editais de concursos para cirurgião-dentista ao redor do país. Notou-se um padrão um tanto quanto arbitrário. Ao contrário dos médicos que recebem excelentes ofertas para atenderem em lugares distantes, com os cirurgiões-dentistas acontecia o seguinte: “ a gente percebeu que não tem um padrão, principalmente em relação a remuneração; os salários muito diferentes. Então, havia concurso público com a mesma carga horária que o dentista iria ganhar um salário mínimo para trabalhar 40 horas e, em outros lugares, 12 vezes essa quantia para fazer o mesmo serviço. E, não tinha aquilo de por ser uma área mais remota o salário ser maior, não! Muito pelo contrário. Então, não existia esse incentivo financeiro. Realmente não tem uma padrão, um planejamento para melhorar essa distribuição.”

Nesse sentido, as pessoas não teriam o porquê mudar, se não por motivos emocionais ou de necessidade, uma vez que não encontrariam uma melhor escola para seus filhos, um lazer durante a semana, facilidades para visitar os entes queridos, trabalho para o cônjuge, dentre outras conjunturas fundamentais para o dia a dia. No pós-doutorado, Mariana está tentando usar os dados adquiridos em sua pesquisa anterior para atingir gestores de maneira a implementar políticas de saúde, que possam amenizar e quem sabe, em algum prazo, solucionar o problema.

Tal abordagem, que aproxima a produção científica dos tomadores de decisão, recebe o nome de síntese de evidência, pois torna mais acessível o fazer experimental àqueles que são leigos na área. A pesquisadora nos adiantou um pouco sobre as soluções propostas, em grande parte inspiradas no que se escavou no conhecimento de outros países e, com as adaptações necessárias, pode ser muito bem aplicável aqui.

O serviço obrigatório já é usado no país, dado que financiamentos públicos como o FIES e o ProUni podem pedir contratualmente um tempo de trabalho do beneficiado no serviço público. Em alguns países isso gerou problemas éticos, devido ao debate sobre obrigar o trabalhador a atuar em algum lugar. Mas, Mariana diz que os resultados preliminares, fruto, principalmente de consultas, apontam que “ no Brasil, a gente percebe que os estudantes gostam dessa opção, porque a odontologia está difícil de mercado hoje, nos grandes centros principalmente e o serviço público é uma oportunidade interessante”

Outro tratamento praticável é estimular e garantir conhecimento para os futuros profissionais, sobre o trato no interior e em áreas remotas, desde a graduação. Estudos feitos, principalmente na Austrália, mostram que essa aplicação dá resultados consideráveis, pois garante ao estudante a possibilidade de experimentar um pouco da vida mais bucólica que, para alguns, pode ser atrativa.

Em uma interpelação mais programática, poderia se adaptar os salários oferecidos de acordo com a necessidade da região de um cirurgião-dentista. Mariana asserta que o incentivo financeiro em um país em desenvolvimento como o Brasil pode ser complicado devido às questões fiscais, enquanto oferece a solução de ofertar bons planos de carreira a médio e longo prazo, ou mesmo incentivo nos estudos e complementações desse profissional.

Por fim, conclui que a decisão última “depende do perfil. Tem pessoa que não quer, não vai gostar, e só diz “eu quero trabalhar em São Paulo, fazer ortodontia, ter um consultório privado e pronto”. E não há problema. Mas, por outro lado, tem muitas pessoas que iriam gostar disso. A ideia não é engessar a profissão, é apresentar e ampliar oportunidades de serviço e, consequentemente, melhorar a saúde bucal da população.”

1 Response

  1. 15/10/2018

    […] quem fica desatendido são aqueles que moram em locais distantes, onde para além do custo, o governo não chega. A Profa. Dra. Simone ressalta que o uso da substância química deve ser constante com o objetivo […]

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