FOUSP na midia: Documentário no Netflix – A Raiz do Problema – põe a Endodontia em cheque

publicado em Dicas Odonto

Endodontistas em pânico nas redes sociais. Um novo documentário do serviço de streaming Netflix chamado “A Raiz do Problema” (The Root Cause) vem causando discórdia e muitos comentários. Há uma corrente da medicina que condena os preceitos dos tratamentos de canal. E o que eles sugerem? Extrações em massa? É uma conspiração da indústria do implante? Dentadura em todo mundo? Com muito custo, assisti ao filme e deixo uma discussão e minhas conclusões abaixo.

Em primeiro lugar, tudo que estudei e estudo na vida, casos que vejo todos os dias pelos últimos 20 anos e com toda a literatura na área da Endodontia posso afirmar sem pestanejar: A Endodontia é segura. Tratamentos de canais são seguros e não causam doenças. Quando indicada corretamente pode salvar dentes e manter dentes que sofreram infecções por cáries profundas na boca.

Um médico de dente horríveis começa dizendo: “Não há ramo da Medicina no qual um órgão morto seja deixado no corpo, exceto na Odontologia com o tratamento de canal.” Ele faz ainda uma analogia a um dedo gangrenado que precisa ser removido. Dedo não é dente, doutor Minkoff. Pelo papinho já vemos que não entende nada de Odontologia.

Eu sei que você deve pensar: “Você é dentista. É lógico que você vai defender o tratamento de canal.” Veja que tudo que realizamos dentro da Odontologia não é tirado do nada. A Odontologia é uma ciência viva, com milhares de estudos, trabalhos e experiências clínicas que comprovam e corroboram seus tratamentos. Ciência viva que está sempre em evolução e revisão. Ademais, olhando friamente para os últimos 30 anos, uma das áreas que mais evoluiu dentro da Odontologia foi a Endodontia – o diagnóstico e tratamento das doenças que acometem a polpa dentária.

Há uma cena em que um médico narra um “teste” que ele fez com uma paciente que chegou ao seu consultório com dores das costas, várias cirurgias na coluna no histórico e problemas de locomoção. Ele teve uma ideia brilhante (sarcasmo mode on) e anestesiou a boca da mulher depois de supostamente diagnosticar um abcesso em volta de um implante em sua mandíbula e a mulher milagrosamente ficou curada de todos seus problemas. Estava sambando na recepção.

O narrador principal do filme conta sua saga com problemas que – também supostamente – vieram de um tratamento de canal. Um tratamento de canal pode falhar, como qualquer tratamento na área da saúde, mas seu sucesso fica em torno dos 95%. Por isso que sempre indicamos os retornos dos pacientes com uma certa frequência.

No final vemos que o narrador assume ser o cineasta responsável pelo documentário – que é muito bem filmado e pode enganar o leigo ou o desatento. Ele mesmo diz que teve que fazer um canal e a partir daí sua vida virou um inferno. O tipo de diagnóstico que determina que o canal é a origem da sua impotência e depressão é no mínimo surreal. É uma antena em um dispositivo que responde perguntas feitas em voz alta.

Opinião do Dr. Manuel Eduardo Lima Machado – AQUI

Pera lá, o canal que ele teve que fazer foi por ter tido um trauma no rosto – tomou um soco tentando ajudar uma moça na rua. Não houve cárie e infecção no dente. Seria o tratamento de um dente vivo o que já quebraria toda linha de raciocínio do filme.

Olha, tem tantas cenas bizarras, falas desconexas e conclusões precipitadas baseadas em achismo que eu poderia passar horas escrevendo. Suas soluções para a exodontia dos dentes são próteses adesivas que “às vezes soltam” segundo eles. Implantes? Apenas os de Zircônia (hoje ainda em fases de teste e pouco acessíveis) porque não são metálicos. Os metais acabam dando problema na eletricidade dos meridianos, segundo o filme. Uma mistura de ciências ditas “alternativas”, Odontologia Biológica e Holística. São especialidades ou ramos que não são reconhecidos pelos Conselhos de Odontologia porque não tem a devida comprovação científica.

Nenhum dos médicos ou dentistas do filme tem publicações no Pubmed, por exemplo. Podem checar.

A Sociedade Americana de Endodontia prontamente enumerou alguns itens baseados na literatura vasta que temos hoje em cima dos tratamentos de canal. Veja alguns pontos:

  • Anualmente, são realizados cerca de 25 milhões de tratamentos de canal com segurança e efetividade. Se fosse verdade que esses tratamentos causassem doenças como câncer, teríamos muito mais informação sobre isso em publicações de revisões científicas e as endodontias não seriam opção de tratamento para preservar dentes na boca.
  • Não há evidência científica válida que conecta dentes tratados endodonticamente e doenças em qualquer lugar do corpo. Dados como “97% de pacientes com câncer têm tratamento de canal” não foram publicados em lugar nenhum.
  • Não há relação de casualidade entre canal tratado e câncer. Ter as duas coisas ao mesmo tempo não significa que há relação de causa e efeito entre elas.
  • Em 2013, um estudo publicado no JAMA (Otolaryngology – Head & Neck Surgery) mostrou que o risco de câncer não aumenta após tratamentos de canal. Na verdade, pacientes com vários canais tratados tiveram uma redução de 45% no risco de câncer.
  • A única opção ao tratamento de canal é a extração do dente. Extração é um procedimento traumático que tem mais chance de levar bactérias para a corrente sanguínea do que a endodontia.

A Raiz do Problema é o excesso de informação sem comprovação e o mundo das Fake News.

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