(Português) FOUSP na Mídia: Prótese da Odontologia da USP reconstrói sorrisos de indígenas

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Perder parte dos dentes ou mesmo todos eles pode provocar desde alterações na fala e na mastigação até reclusão social. O problema atinge 50% da população brasileira adulta e 70% dos idosos, segundo pesquisa do IBGE de 2017, e este porcentual inclui um grupo muitas vezes negligenciado pelas políticas públicas de saúde: os indígenas.

Atentos a esta realidade, no ano passado, o professor Roberto Stegun, da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, em São Paulo, e a ex-aluna Raiza Meira Vieira fizeram uma parceria para levar próteses dentárias a índios do Mato Grosso.

A Raiza era dentista no Alto Xingu, onde morava desde 2016. Em seus trabalhos, ela notou que muitos indígenas apresentavam dificuldades na comunicação e na saúde bucal devido à perda de dentes e que precisavam de próteses. “O SUS apenas realizava a retirada dos dentes e outros processos mais simples. Então, lembrei do professor Stegun e da prótese flex.”

A prótese termoplástica – ou simplesmente flex – é feita de material maleável, parecido com a gengiva. Ela é uma das substitutas favoritas das próteses mais conhecidas, que têm estrutura metálica com grampos que ficam encaixados nos dentes, as “parcialmente removíveis”.

Com a insistência de sua antiga aluna, o professor acabou aceitando o convite. Foram de forma independente para a região do Alto Xingu e, depois de entender a demanda do local e mostrar a cada cacique de cada aldeia como seria o projeto, começaram a produzir algumas peças. “Esta prótese é composta de polipropileno e, para fazê-la, é necessário apenas uma tomada e água. Para fazer a prótese convencional, precisaria levar um laboratório inteiro”, comenta o professor.

Eles produziram cerca de 15 próteses flex para os índios da região. O pesquisador ressalta que cada uma delas é diferente, pois sua confecção depende da condição da saúde bucal de cada paciente. A intenção é criar ainda mais “sorrisos” para as aldeias em 2019, treinando profissionais para produzir as próteses e fazer a manutenção. “O grande ideal do projeto é justamente esse, a capacitação”, diz Raiza. O intuito é que, em um futuro breve, não seja mais necessária a presença da equipe para fazer as próteses.Após a ida ao Xingu, foi a vez de levar o projeto piloto para Rondônia, especificamente ao Lago Cuniã, na região do Baixo Madeira. Lá foi feito um levantamento para entender a necessidade das aldeias e como seria realizado o trabalho. Nesse processo, o professor Stegun também se reuniu com médicos da ONG Doutores Sem Fronteiras que atuam na região. “Tínhamos dez dias de trabalho apenas e a prótese termoplástica precisa de tempo de adaptação nas bocas. Então fizemos as próteses nos quatro primeiros dias e nos outros seis analisamos os casos.”

Em julho, o professor Stegun irá para Rondônia, no povoado indígena dos Paiter Suruís, com a proposta de realizar um projeto piloto e inicial — como ele deixa claro — da Universidade. “A equipe aumentou. Estamos planejando produzir cerca de 30 próteses termoplásticas. Sou pesquisador e para mim não há nada mais animador do que estar lá.”

Os responsáveis pelo projeto ainda aguardam alguns trâmites processuais para a sua autorização por parte de órgãos federais e outras instituições. Embora ainda como um teste, Raiza mostra otimismo e ressalta a importância deste trabalho.

Stegun pesquisa próteses termoplásticas há anos. Em 2012, iniciou estudos para avaliar a substituição das próteses de metal pelas flexíveis, com uso de materiais cedidos pela Rocal Flex. As peças metálicas são indicadas para quem ainda possui alguns dentes na boca, dando estabilidade ao mastigar, mas a técnica não é muito bem aceita pelos pacientes por questões estéticas.

O pesquisador do Departamento de Prótese, então, começou a trabalhar na solução de alguns problemas que envolviam as termoplásticas. Uma das desconfianças era de que, com a flexibilidade, as estruturas pudessem causar algum desgaste no tecido ósseo, trazendo ainda mais problemas ao paciente. A solução veio com uma prótese “flexível, mas rígida”, feita de polipropileno, um material de baixo custo. “Se eu faço pela questão estética, que ótimo, mas vou fazer a questão funcional também”, brinca ele.   

A produção das peças é como um processo de fundição, com gesso e aginato. Na estrutura chamada “mufa”, o professor coloca o gesso — usado para tirar o molde da boca — para ser prensado e, com o molde, injeta a termoplástica, que se adequa ao formato da boca do paciente.

Atualmente, o processo de melhoria desses novos modelos está em torno da coloração e as manchas que eles apresentam, mas as peças já demonstram ter maior resistência a deformações e quebras, menor porosidade e baixo custo de fabricação.

 

Publicado em Jornal da USP 

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