(Português) Verrugas na região da boca de crianças podem indicar abuso sexual?

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Recentemente um caso de crueldade contra uma criança chocou o Brasil, uma menina de apenas 10 anos de idade ficou grávida no estado do Espírito Santo, consequentemente passando por um procedimento, em um hospital de referência em Pernambuco, para interromper a gestação. Evidentemente, respeitando todos os preceitos legislativos garantidos pela Constituição Brasileira de 1988. Afinal, a criança era estuprada pelo seu próprio tio desde seus 6 anos, sofrendo de agressões físicas e psicológicas, fatos que explicam a incapacidade da menina de pedir socorro ou qualquer ajuda.

Este incidente inflamou toda a sociedade civil, acendo a discussão sobre a defesa da infância, com a proteção de crianças vítimas de violência doméstica e de abusos sexuais. Nesta linha, a temática atingiu a odontologia, colocando em dúvida como certas lesões orais de mucosa em crianças podem ser um indicativo ou não de abuso sexual. Afinal, há lesões encontradas na mucosa da boca, cavidade oral e faringe, palato mole e língua que são indicativos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST).

Para entender um pouco melhor sobre toda a temática, e qual devem ser as preocupações reais dos cirurgiões-dentistas quanto a possíveis casos de abuso sexual de crianças, e a tomada de decisão mais acertiva, a FOUSP conversou com duas profissionais, visando enriquecer a discussão: a Profa. Dra. Camila de Barros Gallo, da Disciplina de Estomatologia Clínica, e a Profa. Dra. Karla Mayra Rezende, da Disciplina de Odontopediatria.

O primeiro ponto é entender que uma questão como o abuso sexual de uma criança choca à todos, como tem que chocar mesmo, e exatamente por isso, deve ser tratado com todo o profissionalismo e zelo que pede a situação. “A uma confusão geral por muitas pessoas, afinal criou-se um certo desespero em caracterizar qualquer lesão ou verruga localizada na boca, como uma DST. Contudo, esse tipo de verruga é comum em crianças, não significando diretamente indicativo de que ela foi abusada”, alertou a Profa. Dra. Camila de Barros Gallo.

Seguindo o raciocínio, evidente que o cirurgião-dentista deve prestar atenção, contudo há uma questão primordial, para a Dra. Camilla de Barros Gallo: “a criança que sofre de abusos sexuais apresenta sinais, muito além de uma simples verruga na região oral. Ela geralmente tem medo de adultos, usa roupas de manga comprida e gola alta para esconder hematomas e machucados, e é introspectiva e mais quieta do que o normal. Entretanto, ainda devem ser considerados aspectos relacionados a timidez, e o medo natural de crianças ao irem ao consultório odontológico”.

Perante a mesma temática, a Profa. Karla Mayra Rezende foi em concordância com a Profa. Camila de Barros Gallo, ampliando a discussão: “há diversos sinais envolvidos, perante uma questão psíquica e comportamental da criança. Porém, o diagnóstico é clínico e pode ser confirmado na biópsia excisional da verruga”.

Além disso, a Dra. Karla Mayra Rezende fez questão de pontuar, com bases no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): “de acordo com a legislação vigente é claro o dever do cirurgião-dentista em denunciar suspeita ou constatação de lesões em crianças, bem como outros tipos de negligência: omissão de cuidados e abandono, violência psicológica, humilhação, amedrontamento e violência sexual. Assim, é essencial que o profissional esteja atento durante sua prática clínica a qualquer sinal de violência na criança, posteriormente entrando em contato com o conselho tutelar.”

 

As diferenças entre as lesões

A família do Papilomavírus Humano (HPV) cerva mais de 200 tipos diferentes, sendo o condiloma relacionada à DST uma delas, com uma superfície verrugosa, em aspecto de couve-flor, com cor mais rosada e unidas em placas, dificilmente encontradas individualmente. Já as lesões de HPV que não estão relacionadas ao ato sexual, apresentam o mesmo aspecto de couve-flor, mas são esbranquiçadas e geralmente estão de forma individualizada e não em placas.

Sobre a possibilidade de câncer, ambas as profissionais comentaram sobre dois principais tipos: HPV16 e HPV18. Os dois podem evoluir para um câncer, mas a maioria não causa danos ao organismo e só podem ser detectados por exames, não sendo relacionadas ao câncer de boca.

Posto a enormidade de tipos de HPVs que podem se manifestar, é preciso sempre ter cautela ao examinar uma criança, apontando indicíos de abuso sexual, sempre considerando o todo. “Afinal, há inúmeras formas da criança se contaminar com o vírus, como a transmissão perinatal (transmissão vertical), por objetos contaminados como colher, toalhas, sabonetes (transmissão direta), pelo contato com verrugas cutâneas próprias (autoinoculação) ou de outro indivíduos, e inclusive por abuso sexual (hetero-inoculação)”, detalhou Karla Mayra Rezende.

Ao fim, a Dra. Camila de Barros Gallo fez questão de frisar mais uma vez o quão é delicada a questão: “nunca devemos ser levianos, óbvio não vamos deixar passar uma suspeita de abuso sexual. Contudo, sempre é recomendado contactar os profissionais adequados, como assistente social e psicólogo. E jamais questionar ou perguntar aos pais ou responsáveis pela criança, que a levaram até o consultório odontológico”.

 

fotos: arquivo pessoal

texto: Gabriel Cillo

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