(Português) Violência Doméstica: um problema cultural do Brasil? Onde entra a odontologia nesse cenário?

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Os casos de violência doméstica no Brasil sempre foram uma questão problemática de estrutura social e cultural. Considerando os dados do Atlas da Violência, uma mulher é morta a cada 6 horas, dentro de sua casa, sendo 68% negras, um indicativo evidente da desigualdade social brasileira existente. Contudo, não são só as pobres e pretas que sofrem com esse tipo de agressão. A questão de feminicídio — homicídio cometido contra mulheres motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero — abrange todas os pavimentos sociais e os parâmetro étnicos existentes no Brasil.

Para entender mais sobre o assunto a FOUSP entrevistou dois profissionais, para contribuir com a discussão e análise: o Prof. Dr. Rodolfo Francisco Haltenhoff Melani, do Departamento de Odontologia Social e responsável pelo Laboratório de Odontologia Forense e o ex-aluno, Filipe Ozi Bessa, atualmente trabalhando na Unidade Básica de Saúde (UBS) Malta Cardoso como cirurgião-dentista do Programa de Saúde da Família (PSF).

A dinâmica de atuação do Prof. Dr. Rodolfo Francisco Haltenhoff Melani está com base em como uma lesão, por conta de agressão doméstica, impacta na vida dessa mulher, com qual grau de prejuízo. Passando até por um exame de corpo de delito em muitos casos, no parâmetro de cabeça e pescoço, auxiliando na reparação da vítima em termos legais, mas também como a punição exemplar do acusado. Deste modo, o professor, do Laboratório de Odontologia Forense, explicou um pouco o papel do profissional de odontologia: “evidentemente o cirurgião-dentista não tem a obrigação de saber com precisão identificar os casos de violência doméstica ou abuso sexual, tanto em mulheres como crianças. Afinal, nós, em linhas gerais, não somos preparados para tal, mas cabe ao profissional da saúde suspeitar e saber ler os indícios, sempre relatando todos estes vestígios para alguém mais especializado, como um assistente social”.

Ainda com foco na violência contra mulheres, com base no feminicídio, o Dr. Rodolfo Francisco Haltenhoff Melani fez questão de explicar como abrange mulheres de universos completamente díspares: “há até uma dificuldade de quantificação dos casos, considerando a falta de denúncias, e o fato de permear qualquer classe social, atingindo parâmetros epidemiológicos. É algo cultural, como os famosos “em briga de marido e mulher” e o “filho é meu”.

A análise acima demonstra como é complicado para os cirurgiões-dentistas identificarem casos de agressão. Afinal, há uma resistência da sociedade em mudar questões culturais intrínsecas à sociedade em que vivemos, muitos se discute, mas o que se tem no fim é uma repetição de velhos hábitos: “o agressor está inserido no contexto violento que sempre viveu, muitas vezes reproduzindo ações que ele observou ou sofreu. Seja apanhando do pai ou da mãe, seja vendo o pai ou padrasto bater na mãe”, detalhou o professor.

O contexto de violência retratado pelo docente embasa o que vive na prática o Dr. Filipe Ozi Bessa, na UBS Malta Cardoso: “nós buscamos acolher da melhor maneira possível, mas depende muito da vontade da vítima, nós não podemos obrigar a pessoa a denunciar. Entendemos que há um ciclo de violência que se repete, e que as vítimas estão inseridas em uma situação de fragilidade em vários sentido, como dependência financeira, emocional e psicológica. Não é uma escolha, ela não tá vivendo aquilo porque ela quer”.

Na UBS Malta Cardoso, na qual o CD Filipe Ozi Bessa trabalha atualmente, ainda há uma estrutura mais elaborada presente todos os dias para dar a devida assistência, com psicólogos, assistentes sociais, médicos e demais profissionais da saúde, entretanto, não é a condição de todas. “Recentemente, chegou um caso nas minhas mão um tanto quanto estranho. Um mulher que vinha seguidas vezes relatando as mesmas queixas, mas nada muito concreto ou específico. Nós percebemos que tinha algo errado, até ela me contar que tinha sido estuprada, e na verdade gostaria de realizar exames para saber se não tinha se contaminada com nenhuma DST. Todo esse processo, de abertura e confiança é demorado, até a vítima se sentir confortável para falar”, contou o cirurgião-dentista do SUS.

Em ambos os relatos, tanto no do Prof. Dr. Rodolfo Francisco Haltenhoff Melani como o do Dr. Filipe Ozi Bessa, ficou evidente a necessidade do cirurgião-dentista em ter a sensibilidade de identificar sinais, não é diferente entre as crianças. “Os casos de violência doméstica contra crianças apresentam requintes de crueldade, pois ela não tem a capacidade de verbalizar, ela não consegue pedir socorro, gerando danos psíquicos e físicos incalculáveis”, destacou o professor do Departamento de Odontologia Social.

Contudo, há padrões de comportamento em atos de violência, como uma criança sonolenta — porque quando ela está dormindo não apanha —, mais introspectiva, com medo de adulto e fragilizada por conta de ameaças. Além, do clássico de vestimentas compridas em dias de calor, cobrindo completamente braços, pernas e pescoço. Também se deve ter atenção a hematomas seguidos, com fases de cicatrização diferentes, lábios machucados e dentes fraturados.

fotos: arquivo pessoal

texto: Gabriel Cillo

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