(Português) A importância da educação em ciência para a população brasileira

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A universidade pública passou pelos últimos anos por um processo contendo cortes abruptos de investimento, tanto em infraestrutura como em pesquisas. Esse cenário vem afetando diretamente a Universidade de São Paulo (USP), instituição de origem estadual paulista, que vem travando uma queda de braço constante com o governo do estado de São Paulo por certas migalhas. As explicações para essa situação são várias, dentre tantas há uma real questão de necessidade de contingenciamento de gastos da esfera pública, considerando a crise financeira que o país enfrenta faz uns anos. Contudo, o principal foco é a desvalorização da pesquisa por parte do povo brasileiro.

A falta de investimento por conta da desvalorização passa diretamente por um desconhecimento gigantesco da população brasileira como um todo. Afinal, a divulgação de trabalhos científicos, de forma acessível, não é uma realidade. Esse tipo de texto, os artigos científicos, apresentam uma linguagem extremamente especializada, com termos próprias de cada uma de suas áreas. Com isso, há uma natural desconfiança por parte da população brasileira em geral, visto que não confiamos ou incentivamos aquilo que não conhecemos.

Toda essa questão de distanciamento entre pesquisador e público é também pauta no meio odontológico. Posto, que mesmo a odontologia brasileira tendo um destaque mundial — em tratamento e pesquisa — o acesso ao trabalho científico é mínimo. Pensando nesse ponto, o Prof. Dr. Paulo Henrique Braz da Silva firmou uma parceria entre a FOUSP, a Universidade Federal Paraná (UFPR) e a Rede com Ciência — conjunto de jornalistas especializados em publicações de reportagens científicas — para discutir a temática, através de uma disciplina de pós-graduação.

Essa mobilização resultou na disciplina “Divulgação dos Achados Científicos em Saúde: Popularização da Ciência como Estratégia de Disseminação de Conhecimentos Acadêmicos para o Público não Especializado”. E o professor da FOUSP explicou o cenário: “o cientista escreve artigos e publicações para os seus pares, não tendo a preocupação em tornar acessível para o público não especializado. Evidente que há importância na comunicação entre os pares, entre profissionais de excelência, para enriquecer a discussão. Mas a preocupação com o público não acadêmico também tem sua relevância’.

O fato da população não ter acesso ao que é ciência, e qual é o trabalho do pesquisador, faz com que se crie um senso comum de que a universidade pública é um desperdício de verba e não um investimento. Visão que está mudando por conta da pandemia, visto que agora há um entendimento de que o único caminho seguro neste momento é a ciência com embasamento epidemiológico. “Espero que após a pandemia, passando tudo isso, a população ao invés de apoiar ou justificar corte de gastos, em pesquisa da universidade pública, ela aja de maneira diferente, se revoltando contra o governo responsável por esses cortes”, conta Paulo Henrique Braz da Silva.

O caminho da divulgação científica passa por jornalistas especializados, como o caso da Rede Com Ciência, colaboradora do projeto da disciplina de pós-graduação da FOUSP. Posto que há uma relação direta entre o jornalista que escreve a matéria e o pesquisador como fonte. “Há uma dupla responsabilidade, do jornalista em não destruir ou distorcer conceitos, evitando o sensacionalismo e os famosos clickbaits, e o cientista em saber transmitir o conhecimento de maneira plena, sabendo se expressar e explicar didaticamente os pontos de sua pesquisa”, pondera o professor da FOUSP.

A disciplina foi planejada para que fosse altamente interativa, com exercícios constantes durante as aulas. Por isso, tiveram que limitar o número de matriculados, visto que foram mais de 100 interessados, sendo que o planejamento inicial era para uma turma de 30, e que no final fechou em 55 alunos. “O conceito da disciplina é demonstrar para os alunos, que no futuro vão produzir trabalhos científicos, a importância dessa divulgação para o público não especializado. Tornando algo natural, sistêmico mesmo, assim como a publicação de artigos científicos em grandes revistas especializadas”, explicou o cirurgião-dentista.

Outro ponto que será debatido nas aulas é a questão da desinformação, em como as redes sociais ganharam força no contexto atual, sendo o principal meio de se consumir conteúdo, e infelizmente, a internet é um local que dissemina diversas fake news. Por isso, cabe ao cientista sempre rebater informações falsas e divulgar trabalhos científicos de qualidade, fazendo a sociedade brasileira caminhar para o ideal de educação em ciência.

Sobre o investimento em pesquisa, em aspectos institucionais, o professor da FOUSP comentou possíveis soluções ou até pontos a serem pensados: “as agências de fomento quando vão divulgar oportunidades de bolsas já devem se preocupar com a questão da divulgação científica, pedindo uma elaboração de como será a linguagem de comunicação do projeto. Outra alternativa é a premiação para aqueles que se preocupam com a acessibilidade de suas pesquisas científicas, com destaque para vídeos explicativos concisos. Tudo isso tem que ser muito bem pensado e estruturado, visto que não acredito na funcionalidade tornando algo obrigatório”.

Por fim, o docente disse que está animado para a disciplina de pós-graduação por ser um tema de extrema relevância, ainda mais no período atual: “com a pandemia as pessoas e o governo estão entendendo como a pesquisa funciona, e dando seu devido valor. Afinal, a ciência tem seu tempo, não dá para exigir das instituições e de grupos de pesquisa uma resposta imediata. Principalmente no caso do Brasil que não tem uma constância de investimento, de maneira sistêmica. Por isso, a disciplina é tão relevante, explicando para futuros pesquisadores a relevância desse tipo de comunicação”.

Texto: Gabriel Cillo

fotos de arquivos pessoais

 

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