(Português) Por Onde Anda – Letycia Mary Iida

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O Por Onde Anda do mês de outubro entrevistou a ex-aluna de graduação, a Letycia Mary Iida, que ingressou em 2013 e nos deixou mais recentemente no ano de 2018, se tornando uma profissional exemplar em uma área nem tão conhecida, mas em grande desenvolvimento, que é a odontologia hospitalar.

Sua trajetória dentro da graduação não se limitava apenas às aulas regulares da grade, sempre atenta e participativa das diversas outras oportunidades que a FOUSP oferece aos alunos. Já no primeiro ano teve a experiência da Tutoria Científica, no Departamento de Dentística, junto do Prof. Dr. Glauco Fioranelli Vieira. Dando sequência no segundo ano, com uma Iniciação Científica (IC), com o mesmo docente, em um trabalho relacionado aos diferentes tipos de cores de resina.

Em 2017, Letycia Mary Iida realizou um intercâmbio de seis meses na Universidade de Okayama, no Japão, como bolsista, em uma nova IC em Biomateriais, sendo orientada pelo Prof. Dr. Emilio Satoshi Hara. O foco de sua pesquisa envolvia o estudo de células relacionadas a ossificação da cabeça do fêmur.

Já em 2018, mais uma IC, agora em patologia, no Centro de Atendimento a Pacientes Especiais (CAPE-FOUSP) e no Hospital do Rim (Hrim), com orientação da Profa. Dra. Marina Helena Cury Gallottini.

Ainda durante seu tempo na casa, participou: da Liga Interdisciplinar de Dor Orofacial (2016); Liga de Gestão e Planejamento em Odontologia (2018); Liga de Implante (2018); Liga de Atenção Primária à Saúde (2018); Comissão de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional da FOUSP (2018); Jornadas acadêmicas de Cirurgia, Cuidados Paliativos, Gestão e Planejamento, Pacientes Especiais e de Projetos Sociais; Congressos e Simpósios.

E também, realizou diversos estágios clínicos: Emergências Médicas (FOUSP, 2016); Clínica LELO-FOUSP (2016); Estomatologia (FOUSP, 2017); Urgência Odontológica (FOUSP, 2017); Implante(Clínica NEXT TERAPI-FOUSP); Consultório odontológico credenciado à FOUSP (2018); Projetos Sociais (Construindo Sorrisos/2013, Sorria pro Bem/2018). Sendo os dois projetos sociais objetos de destaque: “acredito que nós devemos oferecer de volta para a comunidade o investimento e ensino que a universidade pública, como a FOUSP, nos proporciona. Visando melhorar os índices humanos e a qualidade de vida, além da troca que temos nesse tipo de atendimento, no qual a população ensina valores ao profissional”, contou Letycia Mary Iida.

Depois de formada, buscou se capacitar ainda mais, passando por processo seletivo de pós-graduação, e sendo aprovada na Especialização em Odontologia Hospitalar no Hospital das Clínicas com ênfase no Instituto de Psiquiatria (2019-2021);  e na Especialização em Saúde Coletiva (2020-2021).

O programa é feito em dois anos, no primeiro o aluno passa por quatro grandes setores, ficando três meses em cada um deles: bucomaxilofacial, psiquiatria, central e coração. Já no segundo ano, o aluno escolhe — com base no desempenho — um dos quatro para seguir e se aprofundar ainda mais na odontologia hospitalar.

A ex-aluna, que já tinha interesse no atendimento a pacientes especiais optou pela psiquiatria. Setor que atende tanto casos ambulatoriais como cuidando de pacientes internados, sendo este último dividido em seis grupos de pacientes: geriátricos, infantil, transtornos alimentares, ansiedade e depressão, comportamentos impulsivos, e enfermaria de agudos.

Para entender um pouco melhor a particularidade de cada uma das seis enfermarias citadas, nossa entrevistada detalhadamente, começando pela geriatria: “com os pacientes idosos há uma preocupação em aconselhar os familiares, cuidadores, enfermeiros e demais pessoas, que convivem com esse paciente, para auxiliar nos cuidados com a saúde bucal. Afinal, muitos têm alzheimer, perdendo a capacidade de autocuidado, alguns são desdentados, sofrendo com candidíase, doença que acomete a mucosa da boca”.

A segunda área foi a infantil: “tendo uma preocupação em perceber sinais, saber interagir com a criança, muitas vezes utilizando linguagem não verbal, mas uma imersão lúdica. Afinal, esses pacientes são introspectivos por conta de abusos sexuais e físicos, vítimas de extrema violência, e até usuários de drogas”.

Sobre transtornos alimentares, Letycia Mary Iida, comenta: geralmente são mulheres jovens, no máximo até 40 anos, que chegam totalmente desnutridas, sem conseguir ficar de pé, em cadeira de rodas, sofrendo de anorexia e bulimia. Sendo, evidentemente, um reflexo da pressão que nós mulheres sofremos para alcançar uma perfeição, com um padrão estético de beleza pré-estabelecido, algo que é totalmente irreal e artificial”.

A quarta enfermaria esmiuçada foi a de ansiedade e depressão: “que teve ter uma atenção ainda maior, considerando o contexto de pandemia que pode despertar uma crise a qualquer momento. Pois para quem sofre desse mal há momento que qualquer coisa importa e pode ser devastador, mas também outros dias que nada importa, não tendo um motivo principal pré-estabelecido”.

Entre os comportamento impulsivos: “há um grande número de viciados em drogas  e álcool, fato que pode devastar completamente a vida social do paciente, afastando os seus de perto. E assim como o alzheimer, o dependente químico perde a noção de autocuidado, sendo a saúde bucal e o cuidado com os dentes a última coisa que ele vem pensar quanto está sobre o efeito da droga. Além, de problemas relacionados a bruxismo e fratura de dentes, por conta da mordida involuntária como efeito reflexo de algumas substâncias”.

E por fim, a última enfermaria, a dos pacientes agudos: “são os casos mais difíceis, que envolve transtorno bipolar de mania, autismo, esquizofrenia, e demais problemáticas, muitas vezes juntas. Que demanda até certas técnicas terapêuticas de tratamento alternativas, pelo fator refratário de alguns pacientes que estão resistentes aos medicamentos padrões. Uma delas é a eletroconvulsoterapia, que com o paciente totalmente sedado, recebe uma pequena descarga elétrica de moda a contrair todos os músculos de uma vez”.

Nesse sentido, de pacientes em enfermarias, há três tipos de internações possíveis. A voluntária, quando o paciente entende a gravidade da situação e procura o tratamento por conta, querendo ser internado, não sendo comum. A involuntária, na qual os pais e amigos do paciente que intercedem pedindo a internação, sendo o maior número de casos. E, por último, a judicial, que geralmente acontece no caso de crianças. “Há casos de contenção física e química do paciente, sendo necessária ajuda de muitos profissionais, mas nós sempre priorizamos o máximo que possível o respeito pelo livre arbítrio do paciente”, alertou Letycia Mary Iida.

Ela ainda contou um dos casos mais marcantes, pessoalmente para ela, de uma paciente da enfermaria dos agudos: “acompanhei desde o início até o final o tratamento de uma mulher de 46 anos, que chegou para nós por conta de uma perna quebrada. Seu quadro era grave, sendo extremamente agressiva, e que no princípio se negava a receber atendimento. Se encontrava em situação de rua, com histórico de abusos, violência e uso de drogas desde a infância. Buscamos minimizar os sintomas e prejuízo, utilizando laserterapia em feridas da mucosa, retirando dentes condenados e reabilitando toda a boca. Em paralelo, voltou aos poucos ter contato novamente com a família, recebendo algumas visitas da mãe. E após quatro meses internada recebeu alta, estava extremamente feliz com sua recuperação, e orgulhosa dos novos dentes. Contudo, infelizmente, após algum tempo nós vimos ela novamente em situação de rua, usando drogas, se afastando da família e retornando para os antigos problemas”.

A odontologia hospitalar, ainda mais na psiquiatria, apresenta peculiaridades ímpares como retratado. E, por isso, a Dra. Letycia Mary Iida expôs sua visão: “trabalhar com esses pacientes em ambientes hospitalar necessita ter um olhar específico, tendo o entendimento do indivíduo como todo, sendo um organismo completo, que está em atendimento em diversas área da saúde. E para isso é preciso ter cuidado com a estigma, o preconceito que paira sobre, falando e discutindo cada vez mais sobre o assunto, sempre buscando oferecer o melhor atendimento”.

Texto: Gabriel Cillo

fotos de arquivo pessoal

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